About Kaly Ganea3 pontos em Encantamentos Kali é uma clériga viajante de Desna, alta, morena, de cabelos e olhos castanhos dourados. Adora descobrir locais novos e conhecer pessoas. HISTÓRIA CURTA: KALI O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos. Kali olhou disfarçadamente para a sua irmã Ana. Sendo gêmeas idênticas, ambas tinham a mesma aparência física – traços delicados, olhos dourados, cabelos castanhos com mechas douradas levemente onduladas –, mas a expressão de deleite, admiração e felicidade que marcava a face de Ana quando ela observava a mãe delas se apresentar era um espetáculo à parte. Kali não imaginava que um dia poderia replicar o semblante de Ana nesse momento. Desde a primeira vez que Kali notou a luminosidade da expressão da sua irmã e as diferenças de personalidade entre elas, Kali com frequência se examinava no espelho, tentando replicar a beleza de Ana, mas só o que ela conseguia era produzir umas caretas bobas. Kali era mais serena, enquanto Ana dava pulos de alegria e gargalhadas quando ganhava um presente, Kali sorria e agradecia. Parecia que em Kali, tudo era mais ameno, tanto felicidades quanto tristezas.
“Porque você não pode ser mais como a Kali?” Dizia sua mãe, Dênia, quando o que Kali mais queria era sentir tudo com a mesma intensidade que Ana sentia. A caravana agora estava acampada nas proximidades de uma cidadezinha nos arredores de Korvosa, e sua mãe se apresentava no palco improvisado da caravana. Tecidos diáfanos multicoloridos se confundiam com as mechas luminosas de Dênia num turbilhão de movimento, que parecia ao mesmo tempo gracioso e intenso. De olhos fechados e com um sorriso misterioso no rosto, Dênia rodopiava, entregando-se à música produzida pela troupe, transportando todos que a assistiam para um mundo mágico onde as preocupações diárias não importam mais. As tatuagens que apareciam de vez em quando por entre os tecidos pareciam estar vivas, a borboleta de Desna parecia querer alçar voo e sair conhecer o mundo todas as vezes que Dênia se movia. O ato de sua mãe era sempre um dos mais populares. Kali adorava observar as expressões das pessoas durante a apresentação: enquanto as mulheres da plateia mantinham uma expressão de deleite e incredulidade, os homens apresentavam olhares intensos, como se temessem perder Délia de vista por um segundo, e faces joviais, não importa a idade que tinham. O final da apresentação sempre terminava com três segundos de silêncio, nos quais os expectadores pareciam acordar do sonho que Dênia os havia colocado, seguidos de uma imensa saraivada de palmas. Ana pulava e batia palmas, contente. Nós nunca cansávamos de assistir a apresentação e treinávamos por horas durante o dia para um dia ficarmos tão boas quanto Dênia. Na tarde do dia seguinte, não foi diferente. “Kali, você tá fazendo errado, abaixa assim ó...” disse Ana, reposicionando Kali. Ana era a coordenadora de coreografia. Kali participava sem reclamar e seguia contente as ordens de Ana, muito mais porque adorava a companhia da irmã do que por causa da dança. Kali não era particularmente ágil ou flexível, mas fazia as vontades de Ana. “KALIANA!!” as meninas ouviram sua mãe chamando. Kali tinha certeza que a escolha de nomes que se complementavam foneticamente tinha sido proposital para facilitar na hora de chamar elas pra alguma tarefa.
“Chega de brincar, vão até a cidade pegar água, senão hoje não tem janta pra vocês” Disse Dênia sorrindo, entregando dois baldes para as meninas. Kali sabia que Ana odiava essa tarefa diária, ela sempre arrumava uma desculpa para tentar se livrar dela. O caminho nem era tão longo, e Kali achava que se elas não pensassem muito sobre o assunto a tarefa ficava mais fácil e, assim, sempre tentava distrair Ana. Dessa vez também não foi diferente. “...e então ela construiu o céu, criou as estrelas e tudo o que vemos a noite...” dizia Kali. “Kali, eu sei o que você tá fazendo...” disse Ana com um sorriso no rosto. “Mas não vai funcionar. Que tal fazermos assim, enquanto você vai pegar a água, eu vou procurar amoras pra fazermos uma sobremesa?” Ana perguntou, já entregando o seu balde pra Kali. “Você sabe que a mãe não gosta quando você me deixa e sai fazendo as coisas sozinha, ela diz que é perigoso pra nós duas e que nem todos da cidade gostam da nossa presença”. Kali sempre tentava dissuadir Ana, mas a esse ponto, ela sabia que o fazia só por costume, ela nunca tinha conseguido fazer Ana mudar de opinião. “Aposto que eu já vou estar no acampamento comendo amoras quando você voltar! A Carli me disse que tem um pé enorme perto daquela pedra que parece um sapo” Disse Ana, já entrando feliz na mata que rodeava o curto caminho entre o acampamento e a cidade. Ana suspirou e ficou por uns segundos observando sua irmã desaparecer por entre os arbustos. Rindo, seguiu para a cidade, e enquanto enchia os baldes, percebeu alguns olhares desdenhosos na sua direção. Viajantes não eram bem vistos por muita gente enraizada – assim que Kali imaginava elas, com raízes em vez de pés. Dênia tinha explicado que algumas pessoas nunca saíram da mesma casa, da mesma cidade, por muitas gerações, e não conseguiam conceber um modo de vida diferente. Kali achava que devia ser muito triste acordar todos os dias no mesmo lugar e tinha pena dessas pessoas. Kali acenou contente para uma senhora enrugada que trazia uma expressão particularmente ranzinza, e recebeu um palavrão de troco. Sem problema, pensou Kali, deve ser nervoso acumulado de nunca conhecer gente diferente. Kali lembrava de cada pessoa que ela via na plateia durante as apresentações, e o que ela mais gostava eram as diferenças. Como eram lindas! Narizes de todos os tamanhos, alguns em uns rostos muito pequenos para eles, outros meio tortos e alguns quase inexistentes. Olhos, alturas, cores e tamanhos diferentes eram pra Kali a prova do amálgama de beleza que o mundo é capaz de produzir. Que aborrecido seria um mundo com tudo igual. Mesmo quando olhava para Ana, Kali via só como as diferenças entre elas eram espetacularmente belas, e como ambas se complementavam justamente por causa delas. Seria chato demais se Ana fosse igual a ela, pensou Kali, rindo alto quando percebeu a ironia, ao passar pela senhora ranzinza. Kali voltou para o acampamento pensando sobre isso, perdida em memórias, catalogando as diferenças mais incríveis e saborosas que ela já tinha visto. Ao chegar na carroça, Kali se surpreendeu, pois não tinha percebido o tempo passar, parecia que só um segundo atrás ela estava olhando para a senhora ranzinza. “Você denovo fazendo as tarefas da tua irmã, Kali? Eu já te disse pra dizer não pra ela, não te disse?” xingou Dênia ao pegar ambos os baldes cheios de água de Kali. “Afinal, onde se meteu a encrenqueira dessa vez?” “Ela disse que foi na pedra do sapo catar amoras” disse Kali, estranhando a demora da irmã. “Vai chamar ela então, já que ela não te ajudou a trazer a água, agora ela vai me ajudar sozinha a fazer a janta!” Dênia reclamou, seguindo em direção à cozinha comunal improvisada da caravana para iniciar a janta.
“Anaaaa! Onde você tá?...pode sair de onde estiver escondida, eu já te vi!”, mentiu Kali. Conhecendo Ana, ela tinha certeza que ela devia estar tentando fazer uma pegadinha com ela. “Anaaaa!” Animada, Kali começou a andar pelos arredores, no suspense de ser surpreendida por sua irmã, que provavelmente ia pular de trás de uma árvore a qualquer instante e rir da cara de surpresa dela por dias.
“Cadê a tua irmã?” perguntou Délia quando a viu.
A expressão de Délia nublou, e ela saiu procurando Ana. “Quando eu encontrar essa pestinha ela vai ver, vai ir buscar água sozinha uma semana inteira!” Não era incomum Ana desaparecer por um tempinho, ela as vezes distraída se afastava da caravana, ganhando um puxão de orelha quando era encontrada. Mas dessa vez foi diferente. Depois de procurar por cerca de 20 minutos, ir e voltar da cidade duas vezes, refazer o caminho para as amoras, Délia começou a ficar preocupada. Foi organizada uma equipe de busca, e todos saíram procurar Ana, nas carroças, na mata nos arredores e na cidade. A caravana contava com cerca de 40 pessoas, e todos em algum ponto ajudaram na busca. Por três dias todos procuraram, mas não havia sinal de Ana. A cada dia que passava sem que Ana fosse encontrada, parecia que um pedaço cada vez maior de Kali era brutalmente arrancado dela. A sensação de ausência era física, e cada dia que passava era mais frio e vazio, como se o inverno tivesse roubado o sol que iluminava sua vida. Depois de cinco dias, a caravana deu por encerrada a busca, tudo em um raio de 5 quilômetros havia sido vasculhado. Só haviam sido encontradas algumas amoras e um pedaço rasgado da blusa de Ana pendurado nos espinhos dos arbustos, nada mais. A maior parte da caravana seguiu em frente, mas três carroças ficaram para trás, fazendo companhia para Kali e Délia, que se recusava a seguir viagem. “E se ela conseguir fugir de onde estiver, ela precisa ter pra onde voltar!!” disse Délia, desesperada e soluçando, ao líder da caravana.
No dia seguinte quando Kali foi pegar água no poço, escutou dois moradores dizerem que se uma das meninas tinha sumido isso era culpa do modo como eles viviam, sem terra e sem casa, vagando pelo mundo. Kali voltou chorando para o acampamento de só três carroças agora. Duas semanas depois, as outras duas carroças se despediram delas e também seguiram viagem. Elas ficaram, Kali cozinhava, arrumava e forçava Dênia a comer. Dênia chorava e ficava murmurando quietamente, evitando olhar para Kali. Kali achava que que era dolorido demais pra Délia olhar para Kali e perceber que ela não era a Ana, e disse para si mesma que não se importava. O tempo passou, e o que era uma carroça coberta virou uma casa simples na beira da estrada para Korvosa. Depois, essa casa modesta se transformou aos poucos em um ponto de comércio para viajantes que por ali passavam, e depois uma taverna e pousada modesta com alguns quartos para viajantes cansados. Délia nunca mais dançou, amortecida pelas próprias raízes, na espera de quem nunca mais voltou. As vezes Kali acordava assustada, chamando por Ana e desorientada quando percebia que estava sob o mesmo céu do dia anterior, nauseada pela falta do movimento da carroça. Alguns anos depois, com a ampliação da taverna para pousada, Délia contratou uma moça chamada Sofia para ajuda-las. Com o passar dos meses, Kali, que sempre foi muito observadora, via a devoção com que ela trabalhava e passou a notar amor no olhar de Sofia quando olhava para Délia. Délia, voltada para o seu próprio desalento, nada via. Um dia, quando chegou em casa, Kali viu Délia dormindo no colo de Sofia no sofá da sala comunal, com uma expressão de paz e tranquilidade que há muito tempo não via no semblante de sua mãe. “Shhhh!” sinalizou Sofia, com um sorriso pequeno, cheio de orgulho e felicidade. Kali entrou na ponta dos pés, pois sabia como era difícil para Délia dormir. Vendo a cena de harmonia e carinho entre Sofia e Délia, Kali sentiu que não era mais necessária ali, e essa sensação foi libertadora. Como um desabafo contente, Kali suspirou sorrindo, naquele momento ela soube que era hora de ir embora, ela não seria mais um lembrete diário para a sua mãe da ausência de Ana. Naquela noite Ana arrumou suas coisas e, na madrugada do dia seguinte, encarou as estrelas, fez uma oração para Desna guiar o seu caminho, e seguiu pela estrada sem olhar para trás. Liberdade, enfim. Perhaps they are not stars, but rather openings in heaven where the love of our lost ones pours through and shines down upon us to let us know they are happy |
